NumaBoa Hora
Uma coleção diferente de relógios




ANALEMA

É fácil observar que a posição do Sol varia na sua altura (direção Norte-Sul) de acordo com as estações do ano e que também varia discretamente sua direção Leste-Oeste com o passar dos dias. Registrando em intervalos regulares ou até mesmo diariamente, à mesma hora, a posição do Sol, a figura obtida se parece com um 8 ou um sinal de infinito. Esta figura é chamada de analema.


Analema do nascer do Sol
Créditos e Copyright: Anthony Ayiomamitis (fig 1.1)

Na fig 1.1 observa-se um analema do nascer do Sol espetacular. 38 exposições separadas, além da foto do local, foram registradas numa única peça de filme entre 12 de Janeiro e 21 de Dezembro de 2002, sempre às 0600 UT. O topo e a base da figura do analema correspondem aos solstícios. Os dois equinócios ocorrem quando o Sol estiver exatamente a meio caminho dos pontos da curva que correspondem aos solstícios. A porção Sul do analema está parcialmente escondida pelas montanhas. O local é Delphi, na Grécia, mostrando as ruínas de Tholos.

Existe uma maneira muito fácil de se obter um analema. Basta fincar firmemente um bastão (gnômon) na terra, num local onde bata sol o ano todo. Cuidando para que a ponta do bastão não seja deslocada, finca-se 12 pinos na extremidade da sombra projetada pelo gnômon, sempre no primeiro dia de cada mês e à mesma hora do dia. Ao final de um ano, os pinos mostram o analema.

Esta figura estranha, em forma de 8, é decorrente de dois fatores independentes: a inclinação de 23,5º do eixo da Terra em relação ao plano da sua órbita ao redor do Sol e a forma elíptica da órbita terrestre. A soma destes dois efeitos é que produz o analema.

O efeito da órbita elíptica



Órbita elíptica de velocidade variável
e órbita circular de velocidade constante
(fig 1.2)

Se a órbita da Terra ao redor do Sol fosse circular, sua velocidade seria constante. Acontece que a órbita terrestre é elíptica e, nos pontos mais distantes do Sol, a velocidade da Terra é menor, enquanto que nos pontos mais próximos do Sol, a velocidade da Terra é maior. A média de velocidade da Terra descrevendo sua órbita elíptica, no entanto, é a mesma velocidade da Terra descrevendo uma órbita circular imaginária.

Este é o efeito provocado pela órbita elíptica porque o Sol não se encontra exatamente no centro desta elipse. No hemisfério Sul, no solstício de inverno, em Julho, é quando a velocidade da Terra está bem abaixo da média e, no solstício de verão, em Janeiro, é quando a velocidade da Terra está bem acima da média. A velocidade média, no entanto, é a mesma da órbita circular imaginária.

Observe na fig 1.2 que o movimento de translação na órbita elíptica só pode acompanhar o movimento de translação na órbita circular se a velocidade da Terra for variável.



Rotação da Terra em 24 horas
(fig 1.3)

Agora vamos imaginar que a Terra esteja fazendo um movimento de rotação enquanto se desloca na sua órbita. Vamos escolher um ponto no equador terrestre (marcado com uma seta na fig 1.3) e observá-lo. Note que a Terra "A" viaja na órbita circular numa velocidade constante e que a Terra "B" viaja na órbita elíptica de modo que, em Janeiro, está se deslocando numa velocidade maior que a média. Após 24 horas de rotação, tanto a Terra "A", quanto a "B", rodaram cerca de 361 graus.

Sobrepondo as órbitas e olhando mais de perto, podemos observar a situação através da fig 1.4. Após 24 horas, se estivéssemos no ponto fixado na Terra "A", o Sol estaria exatamente sobre nossas cabeças e seria exatamente meio-dia. Se estivéssemos no ponto fixado na Terra "B", o Sol NÃO estaria diretamente sobre nossas cabeças - a Terra "B" ainda teria que rodar um pouco mais em relação ao Sol. Na Terra "B", vemos o Sol discretamente deslocado para o Leste, indicando que ainda falta um pouco para o meio-dia. Após mais 24 horas, a Terra "B" continua se movendo mais rápido que a média e o "atraso" em relação ao meio-dia aumenta, ou seja, o efeito se soma.



"Atraso" do Sol na órbita elíptica
(fig 1.4)

Neste exemplo são mostradas diferenças muito exageradas para acentuar o efeito. Na realidade, em Janeiro, quando a Terra está mais próxima do Sol e percorrendo sua órbita numa velocidade maior, a diferença entre a posição do Sol vista da Terra "A" e da Terra "B" corresponde a um ângulo de apenas 0.03 graus e a Terra "B" precisa rodar menos de 8 segundos para se "alinhar" - melhor dizendo, para rodar esta distância angular.

O aspecto mais importante deste exemplo é que a diferença vai se acumulando diariamente até início de Abril, quando as velocidades da Terra "A" e da Terra "B" se igualam. Nesta época, a soma de todos os "atrasos" chega a quase 8 minutos e o Sol terá seu "desalinhamento" máximo para o Leste. Do início de Abril até o início de Julho, o Sol vai "tirando este atraso" e vai se alinhando gradativamente para o Oeste.

No início de Julho, início da época da baixa velocidade da Terra, o Sol vai se "desalinhando" para o Oeste até o início de Outubro, época em que mostra seu "desalinhamento" máximo nesta direção. Se em Janeiro o Sol começou a se "atrasar", em Julho ele começa a se "adiantar" em relação ao meio-dia. Depois, do início de Outubro até o início de Janeiro, novamente quando as velocidades das Terras "A" e "B" se igualam, o Sol vai "corrigindo seu adiantamento" e vai se alinhando gradativamente para o Leste até atingir novamente sua posição inicial em 2 de Janeiro.

Estes "atrasos" e "adiantamentos", quando registrados, acabam formando a figura do analema. São conhecidos como Equação do Tempo. Estas diferenças com o meio-dia podem ser calculadas e seus valores transferidos para um gráfico. Após alguns séculos, a forma do analema mostra algumas alterações, o que significa que a equação do tempo também se altera. Para efeito dos cálculos, vamos considerar que o periélio (quando a Terra está mais próxima do Sol) de 2003 e de 2004 ocorre em 4 de Janeiro.

Calculando a Equação do Tempo

Para calcular a equação do tempo precisamos achar o ângulo v que a Terra forma com o Sol após o periélio e compará-lo com o ângulo que a Terra faria com o Sol se estivesse descrevendo uma órbita circular.

É fácil calcular este ângulo para um dia "médio", isto é, se a Terra estivesse numa órbita circular:

ângulo médio = 360° / 365.24 dias num ano
ângulo médio = 0.986° por dia


Sol verdadeiro e Sol médio
(fig 1.5)

Como a Terra se move mais rápido em alguns dias e mais lentamente em outros, queremos encontrar a diferença para estes dias e compará-la com o dia médio.

A fórmula para a excentricidade de órbitas foi tirada do livro "Practical Astronomy With Your Calculator", de Peter Duffett Smith, Cambridge University Press, ISBN 0-521-35699-7. Este é um excelente livro que contém inúmeras fórmulas astronômicas que podem ser utilizadas em calculadoras. A fórmula original foi simplificada para esta demonstração.

O método para encontrar o ângulo da Terra numa órbita elíptica em relação ao Sol considera o ângulo médio = 0.986º por dia e N = número de dias decorridos desde o periélio:

a = 0.986 . N

Como e = 0.016713 (a medida da forma da elipse), então

v = a + 360/pi . e . sen a

ou seja, v = a + 1.915 sen a

Esta fórmula é apenas uma aproximação. Existe uma fórmula, descrita no livro do Smith, que calcula o ângulo com uma precisão maior.

Para converter o ângulo em tempo é fácil. A Terra roda aproximadamente 361º em 24 horas ou 1440 minutos:

1440 / 361 = 3.989 minutos por grau de rotação da Terra

Exemplo: qual será o "desalinhamento" do Sol em 5 de Janeiro, 1 dia após o periélio?

N = 1
a = 0.986 x 1 = 0.986
v = 0.986 + 1.915 sen 0.986
v = 1.019
a - v = -0.033
-0.033 x 3.989 = -0.013 minutos ou
Equação do Tempo de -7.5 segundos

Apesar deste valor parecer insignificante, não se esqueça que a diferença de tempo é cumulativa. O gráfico a seguir mostra que, após 3 meses de desalinhamentos sucessivos, a diferença chega a quase 8 minutos.



Gráfico da Equação do Tempo para 1 ano - órbita elíptica
(fig 1.6)

A tabela a seguir é para os 10 primeiros dias após o periélio. A coluna "Dia" é o número de dias após 4 de Janeiro. A coluna "Ângulo" contém o ângulo que a Terra faz com o Sol numa órbita elíptica. A coluna "Média âng. por dia" é o que seria o ângulo médio se a órbita fosse circular. Esta tabela mostra que, após 10 dias, o Sol "desalinhou-se" em direção ao Leste e que levaria mais de 1 minuto para alcançar o seu ponto mais alto no céu.

DiaÂnguloMédia âng.
por dia
Diferença
angular
Diferença
em minutos
00000
11.01860.9856-0.0329-0.1314
22.03721.9713-0.0659-0.2628
33.05572.9569-0.0988-0.3941
44.07433.9426-0.1317-0.5253
55.09284.9282-0.1645-0.6563
66.11125.9139-0.1973-0.7871
77.12966.8995-0.2301-0.9177
88.14797.8852-0.2627-1.0480
99.16628.8708-0.2953-1.1781
1010.18439.8565-0.3278-1.3077


Figura de uma elipse
(fig 1.7)

Uma elipse é uma figura ímpar na Astronomia uma vez que é o caminho de qualquer corpo orbitando ao redor de outro. Uma elipse é um círculo achatado. Dois pontos fixos no interior da elipse, F1 e F2, são chamados de focos. Para o sistema Sol-Terra, F1 é a posição do Sol, F2 é um ponto imaginário no espaço enquanto a Terra segue o caminho da elipse.

Toda elipse possui uma propriedade especial: a soma das distâncias entre P1 e os focos é igual à soma das distâncias entre P2 e os focos. Isto é verdadeiro para qualquer ponto P da elipse. A distância a é o semi-eixo maior e a distância b é o semi-eixo menor.

A excentricidade e de uma elipse é a medida da assimetria da elipse. É a proporção da distância do centro a um foco / semi-eixo maior.

A excentricidade e pode ser calculada da seguinte forma:

Fórmula da excentricidade

A excentricidade da elipse da fig 1.7 é 0.661. A excentricidade da órbita da Terra ao redor do Sol é 0.017. Apesar de não parecer muito, acaba resultando em:

semi-eixo maior da órbita terrestre = 150 000 000 km
excentricidade = 0.017
r = e . a = 2 550 000 km


Observações

Até este ponto, para facilitar a compreensão, desprezamos a inclinação da Terra e nos posicionamos exatamente sobre a linha do equador terrestre para observarmos os fenômenos descritos. Faltam alguns detalhes que precisam ser detalhados e que você encontra no texto Analema II.


FONTES

The Analemma de Bob Urschel - autor do texto traduzido.


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