Are you sure?
As dúvidas cruéis das cabeças analógicas nesse mundo digital
Biblioteca da Aldeia

N

ão sei não, mas acho que a explosão da Internet, entre outras coisas, democratizou a ignorância binária. Tirando uns poucos que realmente dão a impressão de saber o que é multitasking, o resto vive aquela agonia de tomar decisões na base do mouse ou menos:

— Saco! Eu clico Yes para dar um download e aparece outro box com a pergunta Are You Sure? Como é que no Brasil, hoje em dia, alguém pode ter certeza de qualquer coisa, Rute?

— É o que todo mundo está se perguntando, Fernando Henrique.

Não é uma questão de background acadêmico, nem de experiência anterior em qualquer campo, mesmo que o indivíduo encarando a telinha seja uma sumidade em física quântica. O que é o caso daquela mãe cheia de Ph.D., preocupada com a estranhíssima nóia do filho de 15 anos.

— Jorginho, você não serve pra nada, não quer nada como nada, não gosta de estudar... Onde foi que eu errei, meu Deus?

Ô, mãe, pel'amor de Deus, também não é caso pra tanto drama...

— Estou falando desse computador, Jorginho. Dei um Escape e apagou tudo. Onde foi que eu errei, Jorginho??

O Jorginho vai lá, dá três tapas no teclado e pronto: tudo volta ao normal. Ele é um legítimo representante da nova geração cibernética, seres meio virtuais que os pais ainda estão tentando decifrar. Tudo começou com o videocassete:

— Uma coisa eu não entendo, Bete. Como é que esse pessoal fala em avanço tecnológico e depois faz um manual retardado desses? Faz uma hora que estou tentando acertar o relógio do videocassete e nada... Essa porra veio com defeito!

Que nada, bem, chama a Vanessa que ela acerta. Vanêêê!

Como assim? A Vanessa acerta, Bete? Ela tem 7 anos! Vai arrebentar tudo e depois a gente perde a garantia. Veja aqui, na página 24 está escrito que não é para fa...

Brigada, Vanê. Pronto, bem, tá certinho, três e vinte e quatro pê-eme.

Isto me faz lembrar do dia em que meu pai comprou nosso primeiro automóvel, um Fusca meia oito, usado. Antes de deixar a gente chegar perto do carro, ele fez a família inteira ler o manual do proprietário. Quando ia ao posto, ficava discutindo a calibragem correta dos pneus com o frentista. "O que adianta saber dirigir sem ter noção de como funciona a bomba injetora?", ele perguntava. Me bateu um monte de vezes aquela vontade de dizer pra ele que tinha milhões de gentes dirigindo por aí, sem nem sequer saber que a bomba injetora existia. Mas aqueles eram outros tempos...

"Pra que é que eu vou querer saber quem codificou a linguagem Java, pai? Aperta aí o F3", me disse meu filho adolescente quando eu tentava explicar pra ele que em informática as coisas não eram assim tão simples como ele pensava. Eu já ia contra-argumentar, cheio de razão, quando ele mudou de assunto: "Ô, pai, esqueci, o carro tá com problema. O mecânico diz que é a bomba injetora. Quiquié isso?"

— Esquece, filho. Me explica aí de novo: se eu apertar F3, acontece o quê, mesmo?



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Autor: Max Gehringer (max.comedia@abril.com.br) na primeira edição da Revista de Web
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